Livro de Mórmon - parte 2 - Livro de Mórmon e DNA
A CES Letter clama:
“A análise do DNA concluiu que os índios americanos não são originários do Oriente Médio nem de israelitas, mas da Ásia. Por que a Igreja mudou o seguinte trecho da página de introdução na edição de 2006 do Livro de Mórmon logo depois que os resultados da pesquisa foram publicados?
“…os lamanitas, que são os principais ancestrais dos índios americanos" para “…os lamanitas, que estão entre os antepassados dos índios americanos"
Essa questão pode ser dividida em três partes: (1) a análise do DNA dos índios e sua conexão ou não com israelitas; (2) a mudança na redação da introdução do Livro de Mórmon; (3) o possível medo da Igreja de descobertas científicas que venham a desacreditar o Livro de Mórmon.
Vou responder cada um desses assuntos, mas não de forma exaustiva. Vou voltar a alguns deles em outros artigos e recomendar leituras nas notas de rodapé para uma pesquisa mais profunda.
LEIA UMA RESPOSTA CURTA PARA ESSA PERGUNTA AQUI.
Quem são os lamanitas
Logo na página título do Livro de Mórmon, lemos que o Livro de Mórmon foi “escrito aos lamanitas, que são um remanescente da casa de Israel; e também aos judeus e aos gentios” [1]. O Livro de Mórmon conta a história de uma família israelita que deixou Jerusalém 600 anos antes de Cristo e migrou para a América. Por cerca de mil anos, eles se desenvolveram. Os descendentes desses povos antigos - os lamanitas - sobreviveram.
Joseph Smith e os primeiros membros da Igreja acreditavam que os indígenas eram lamanitas, descendentes dos povos do Livro de Mórmon. Várias revelações de Doutrina e Convênios falam sobre pregar aos lamanitas [2].
A primeira coisa que devemos fazer é entender o que significa “lamanita” no Livro de Mórmon. O primeiro significado é étnico ou, melhor, genético. Os lamanitas eram descendentes de Lamã [3] - filho de Leí, primeiro profeta mencionado no Livro de Mórmon. Contudo, não apenas Lamã e seus descendentes compunham esse povo, mas também Lemuel, seu irmão, e sua família, e vários outros. Muitos estudiosos acreditam que os lamanitas se misturaram com outros povos que já viviam nas Américas.
Gordon C. Thomasson, doutorando em educação, sociologia do desenvolvimento e estudos do sudeste asiático na Universidade de Cornell, explicou que a definição do termo "lamanita" no Livro de Mórmon é complexa e depende de vários fatores como tempo, lugar e os indivíduos envolvidos. No início, "lamanita" referia-se aos seguidores de Lamã e "nefitas" aos seguidores de Néfi (irmão de Lamã), que se autointitulavam assim por acreditarem nas revelações de Deus. Essa divisão, entretanto, se tornou mais fluida ao longo do tempo, com pessoas mudando de um grupo para outro conforme suas crenças e comportamentos.
Com o passar do tempo, os termos "lamanita" e "nefita" adquiriram significados diferentes, às vezes referindo-se a nacionalidade, ancestralidade ou padrões de comportamento. Por exemplo, os "povos de Amon", que eram lamanitas convertidos, viviam entre os nefitas e os apoiavam contra os lamanitas não convertidos. Após a vinda de Cristo, todos foram convertidos e passaram a ser conhecidos como "o povo de Néfi", sem distinções entre eles. Quando a apostasia voltou, surgiram novamente grupos que se autodenominaram lamanitas, independentemente de sua ancestralidade real, mas sim baseados em suas ações e escolhas. [4]
Como Joseph Smith entendia o termo “lamanita”? Quando ele tinha 17 anos, foi visitado pelo anjo Morôni, que lhe informou sobre os habitantes aborígenes da América, revelando que eram descendentes literais de Abraão [5]. Joseph traduziu o Livro de Mórmon, que apresenta os nativos americanos, conhecidos como "lamanitas", como descendentes de uma linhagem escolhida e em pé de igualdade com todos os outros aos olhos de Deus. Este livro introduziu uma nova perspectiva sobre os nativos, refutando visões de sua época que os consideravam selvagens ou degenerados.
Entre 1823 e 1829, Joseph Smith se dedicou à preparação, tradução e publicação do Livro de Mórmon. A primeira missão oficial da Igreja aos lamanitas foi liderada por Oliver Cowdery, acompanhado por outros missionários, em 1830 [6]. Eles pregaram para várias tribos indígenas, incluindo os Seneca e os Delaware, embora enfrentassem resistência de agentes governamentais e ministros sectários. Apesar das dificuldades, a missão resultou em conversões significativas em Ohio. Durante os anos em Kirtland e Missouri, a preocupação com os lamanitas persistiu, mas as perseguições e acusações dificultaram atividades missionárias extensas. Em Nauvoo, Joseph teve mais interação com os lamanitas, fortalecendo os laços e ensinando-lhes sobre o Livro de Mórmon e a necessidade de viverem em paz.
Para Joseph Smith e seus contemporâneos, os nativos americanos eram os lamanitas.
Byron R. Merrill, professor de escritura antiga da BYU, disse:
“Mas o que [Joseph Smith] viu em termos de realização de seus esforços [de pregação aos lamanitas]? Na mortalidade, ele viu muito pouco, mas em visão deve ter visto os lamanitas “florescerem como uma rosa” (D&C 49:24). O trabalho pessoal de Joseph teve apenas alguns remanescentes prontamente acessíveis a ele, mas ele profetizou que “toda a América do Norte e do Sul era Sião” (Woodruff 2:388), prevendo a expansão da compreensão dos santos sobre quem são os lamanitas. Não estão agora os seus justos desejos e esforços dando frutos na América do Norte, Central e do Sul, e nas Ilhas do Mar?
Se Joseph estivesse aqui hoje, qual seria sua mensagem aos lamanitas? Alguém pode se perguntar se ele não abriria o Livro de Mórmon com estas palavras inspiradas de Mórmon:
"Sabei que sois da casa de Israel. (...) Sabei que deveis ter conhecimento de vossos pais e arrepender-vos de todos os vossos pecados e iniquidades e crer em Jesus Cristo (...) e se crerdes em Cristo e fordes batizados, primeiro com água, depois com fogo e com o Espírito Santo, seguindo o exemplo de nosso Salvador conforme o que ele nos ordenou, tudo estará bem convosco no dia do juízo.” (Mórmon 7:2, 5, 10)
Será que ele não encerraria seu sermão com o sagrado convite de Morôni: “Sim, vinde a Cristo e sede aperfeiçoados nele” (Morôni 10:32)?” [7]
Acreditar que os nativos americanos são lamanitas não quer dizer acreditar que todos eram descendentes de Lamã, nem mesmo que eram todos descendentes diretos de Leí. Como eu já disse, houve mil anos de história de miscigenação e embaralhamento cultural. Mas a crença de Joseph Smith e de outros santos de que os índigenas eram lamanitas, os ajudou a vê-los como parte do povo eleito de Deus.
Um artigo no site da Igreja sobre a identidade lamanita diz:
"As promessas do Livro de Mórmon para os lamanitas motivaram os primeiros esforços para transpor as barreiras culturais entre os santos de ascendência europeia e os santos ou conversos em perspectiva de ascendência nativa americana. (...)
Os missionários ensinaram às pessoas de ascendência indígena das Américas e do Pacífico que elas eram descendentes dos nefitas e dos lamanitas. Depois de receber o evangelho, os conversos dessas regiões aceitaram de bom grado a maneira como o Livro de Mórmon os ligava a um legado perdido e a um futuro prometido, especialmente quando comparada com as condições difíceis e muitas vezes opressivas nas quais viviam. Os santos que se identificavam como lamanitas trabalhavam por conta própria e em cooperação com empreendimentos da Igreja para progredir espiritual e materialmente e para ajudar a cumprir a profecia de que, “antes que venha o grande dia do Senhor, (…) os lamanitas florescerão como a rosa”. [8]
Lamanita pode, contudo, significar mais do que os descendentes diretos de Leí. Lane Johnson, instrutor no Sistema Educacional da Igreja, explicou:
“Os lamanitas nesta definição sobreviveram além do encerramento do registro do Livro de Mórmon (...). Isto é, eles são os descendentes de Leí, Ismael e Zorã (ver D&C 3:17–18); eles são descendentes de Muleque e dos outros de sua colônia (ver Hel. 6:10; Ômni 1:14, 15); Certamente eles se misturaram com muitas outras linhagens nos confins de sua dispersão nas Américas e na maioria das ilhas do Pacífico, desde a época em que Morôni se despediu deles em 421 d.C.” [9]
Ross T. Christensen, em 1976, um arqueólogo membro da Igreja, escreveu:
“O profeta Leí, conforme registrado em 2 Néfi 1:5, relatou que o Senhor também trouxe outros povos para as Américas. Nos versículos 10-12, ele prometeu a seus filhos que, quando seus descendentes 'caíssem na incredulidade' e rejeitassem o Messias, essas outras nações tomariam suas terras, os feririam e os espalhariam em meio ao derramamento de sangue, de geração em geração. Portanto, é impossível afirmar com veracidade que todos os índios americanos são lamanitas." [10]
Antes desses estudiosos, porém, em 1929, um apóstolo da Igreja, Anthony W. Ivins, disse:
“O Livro de Mórmon ensina a história de três povos distintos, ou dois povos e três colônias diferentes de pessoas, que vieram do velho mundo para este continente. E não nos diz que pessoas não vieram depois. E, portanto, se forem feitas descobertas que surgiram diferenças nas origens raciais, isso pode ser facilmente explicado, e razoavelmente, pois acreditamos que outras pessoas vieram para este continente." [11]
A análise do DNA dos índios e sua conexão ou não com israelitas
A Igreja tem um excelente artigo chamado “O Livro de Mórmon e as pesquisas de DNA” [12]. Recomendo fortemente sua leitura.
A posição da Igreja é que o Livro de Mórmon narra a história de pequenos grupos israelitas, liderados por Leí e Muleque, que foram trazidos da antiga Jerusalém para o continente americano pelo Senhor. Profetas dessa civilização ensinaram sobre Cristo por mais de um milênio, mas eventualmente o povo caiu em apostasia, e uma parte dessa civilização foi destruída. Os profetas modernos, desde Joseph Smith até o presente, têm ensinado consistentemente que os remanescentes dos lamanitas são ancestrais dos nativos americanos modernos. Essas declarações foram feitas em conferências gerais e em dedicações de templos.
Nos últimos anos, alguns críticos alegaram que pesquisas demonstrando homologia considerável entre o DNA dos nativos americanos modernos, mongóis e siberianos do sul, bem como uma aparente falta de homologia entre o DNA dos judeus modernos e dos nativos americanos, seriam uma prova de que a visão tradicional dos membros da Igreja sobre as origens dos nativos americanos era falsa.
Alguns defensores da Igreja tentaram explicar esses dados invocando teorias de geografia limitada, propondo que a atividade dos nefitas e lamanitas foi restrita a uma pequena área na América Central. Eu não acredito nisso.
Uma análise mais detalhada demonstra que as evidências de DNA não desacreditam as crenças tradicionais que temos, e que as alegações dos críticos são baseadas em suposições não factuais e interpretações equivocadas dos dados genéticos.
Olha só, os estudos de DNA mitocondrial mostram que mais de 98% dos nativos americanos testados até hoje carregam haplogrupos A, B, C ou D, que são mais comumente encontrados em mongóis e siberianos do sul, e raramente em judeus modernos. Outro 1% carrega o haplogrupo X, encontrado em populações siberianas, europeias e do Oriente Médio. As suposições dos críticos de que o DNA mitocondrial moderno dos judeus representa com precisão o DNA mitocondrial do antigo Israel são contestadas por descobertas que mostram pouca homologia entre diferentes grupos judeus modernos. Estima-se que a genética dos judeus modernos não constitui um controle válido dos genes do antigo Israel, portanto, as alegações de descendência israelita não podem ser confirmadas ou negadas com base nos dados de DNA mitocondrial.
Aliás, seria bom um pouco de história bíblica aqui. Israel é pai de 12 tribos - sendo uma delas a tribo de Judá, que deu origem aos judeus. Contudo, por séculos, o povo de Israel - 10 tribos, foram dispersas e misturaram-se com outros povos.
Michael H. Crawford, um antropólogo molecular, explicou que a conquista europeia e suas consequências criaram um gargalo genético nas populações ameríndias, reduzindo drasticamente sua variabilidade genética [13]. Essa perda significativa de diversidade genética e a seleção natural distorceram as frequências dos genes dessas populações. As reduções populacionais alteraram para sempre a genética dos grupos sobreviventes, complicando as tentativas de reconstruir a estrutura genética pré-colombiana. Pesquisas posteriores confirmaram que a deriva genética e o colapso populacional após o contato europeu causaram a perda de muitos haplótipos, dificultando ainda mais a reconstituição da história genética dos nativos americanos.
O estudo do DNA antigo pode oferecer informações valiosas, mas enfrenta desafios como o acesso limitado aos restos mortais antigos, a contaminação e a degradação do DNA devido a fatores ambientais. As tentativas de sequenciamento muitas vezes falham, e os dados obtidos são frequentemente limitados. Mesmo assim, um estudo recente de um esqueleto encontrado no Alasca, datado de 10.000 anos, revelou um novo haplogrupo, D4h3, anteriormente não classificado. Apesar dessas dificuldades, combinar DNA antigo e moderno pode fornecer insights sobre a história das populações nativas americanas, embora ainda seja um desafio determinar a afiliação genética exata dos povos descritos no Livro de Mórmon.
Neste ponto, quero dizer que populações antigas na Islândia, Grã-Bretanha e no Oriente Próximo são exemplos de pessoas que existiram, mas não deixaram um perfil genético que possa ser detectado em populações modernas [14]. Então não é apenas difícil de localizar lamanitas, mas populações muito bem conhecidas hoje também o são.
Após escrever um artigo sobre o DNA e o Livro de Mórmon, Ugo A. Perego, pesquisador do ramo de genética, disse:
“O Livro de Mórmon não é um volume sobre a história e as origens de todos os índios americanos. Uma leitura cuidadosa do texto indica claramente que as pessoas descritas no Livro de Mórmon limitaram-se no registro de sua história a eventos que tinham relevância religiosa e que ocorreram relativamente próximos dos guardiões dos anais.
O fato de o DNA de Leí e do seu grupo não terem sido detectados nas populações nativas americanas modernas não demonstra que este grupo de pessoas nunca existiu ou que o Livro de Mórmon não possa ser de natureza histórica. A ausência de evidência não é evidência de ausência. Além disso, a própria ideia de localizar a assinatura genética da família de Leí em populações modernas constitui uma hipótese verdadeiramente não testável, uma vez que não é possível conhecer a natureza dos seus perfis genéticos. Sem sabermos a assinatura genética a ser localizada, qualquer tentativa de pesquisá-la resultará inevitavelmente em novas suposições e hipóteses não testáveis.
(...)
O DNA mitocondrial é sem dúvida uma ferramenta poderosa que pode revelar detalhes sobre os processos de expansão que levaram à colonização do mundo, incluindo o duplo continente da América. No entanto, não é adequado como ferramenta definitiva para avaliar a historicidade de documentos religiosos como o Livro de Mórmon e a Bíblia. Se o DNA de Leí e de sua família não puder ser detectado com segurança na população ameríndia moderna, isso significa que eles nunca existiram? Os princípios subjacentes a esta questão podem ser extrapolados para outros cenários religiosos. Poderemos usar o DNA para provar de forma decisiva que os grandes patriarcas bíblicos – Abraão, Isaque e Jacó – alguma vez existiram? Quais eram os seus próprios haplótipos de mtDNA e os de seus descendentes? E quanto às outras grandes figuras do Antigo Testamento, como José do Egito, Moisés e Isaías? Podemos usar a análise de DNA para provar que Jesus Cristo viveu? O Novo Testamento menciona que Jesus tinha irmãos e irmãs (Mateus 13:55-56; Marcos 6:3) através dos quais o mtDNA de Maria poderia ter sido transmitido às gerações futuras (e se não através de Maria, talvez através de alguns dos seus parentes do sexo feminino). Onde está o seu DNA na população de hoje? Seria aceitável concluir que estas são figuras históricas fictícias e que o texto bíblico é uma farsa devido à falta de evidências genéticas?” [15]
O artigo da Igreja, que recomendei no começo, termina assim:
“Por mais que críticos e defensores do Livro de Mórmon desejem usar estudos de DNA para apoiar seu ponto de vista, a prova é simplesmente inconclusiva. Nada é conhecido sobre o DNA dos povos do Livro de Mórmon. Mesmo que essas informações fossem conhecidas, processos como o gargalo da população, a deriva genética e a imigração pós-colombiana da Eurásia Ocidental tornam improvável que o DNA deles possa ser detectado hoje.” [16]
Agora uma nota pessoal antes de seguir com o artigo. Em 2 de abril de 2013, publiquei no meu Facebook o seguinte:
“Acabei de ler uma coisa bem interessante no jornal de hoje ("O Estado de São Paulo A11 - 02/04/13, Terça-Feira):
Cientistas acharam uma relação entre o DNA da Polinésia e os índios extintos do Brasil
A reportagem diz que eles não têm uma explicação para este fato. Mas eu tenho! Para mim, trata-se de mais uma evidência da veracidade do Livro de Mórmon.
Se esses pesquisadores lessem o Livro de Mórmon, aprenderiam que um certo Hagote, que era um "homem muito curioso", partiu pelo mar para terras desconhecidas (Alma 63:5-8).
"Profetas dos últimos dias declararam que os barcos de Hagote chegaram às ilhas do Pacífico, onde se tornaram parte da cultura polinésia. Em 1913, em resposta a um telegrama que recebera previamente de que “talvez” fossem parte do povo de Hagote, o Presidente Joseph F. Smith disse a um grupo de santos polinésios: “Gostaria de dizer-lhes, irmãos e irmãs da Nova Zelândia, que entre vocês há alguns do povo de Hagote, e não há DÚVIDA ALGUMA disso!” Ele explicou que quando era missionário no Havaí, o Espírito testificou-lhe que os polinésios eram descendentes de Leí. (William A. Cole e Elwin W. Jensen, Israel in the Pacific [1961], p. 388.) Posteriormente, na oração dedicatória do Templo do Havaí, o Presidente Heber J. Grant agradeceu ao Pai Celestial por “milhares e dezenas de milhares dos descendentes de Leí, nesta terra privilegiada, terem adquirido um conhecimento do evangelho”. (“The Dedicatory Prayer in the Hawaiian Temple”, Improvement Era, fevereiro de 1920, p. 283.) - Manual do Aluno do Seminário - Curso o Livro de Mórmon, pg. 143” [17]
Assim, embora ainda não consigamos afirmar que o povo do Oriente Médio tem relação genética com o povo das Américas, as evidências vão aparecendo pouco a pouco - tais como uma ligação entre antigos nativos do Brasil e polinésios.
A mudança na redação da introdução do Livro de Mórmon
Antes de responder à mudança na introdução do Livro de Mórmon, é preciso identificar o que é escritura e o que são adições que facilitam a leitura. A página-título é escritura, pois é parte da tradução do Livro de Mórmon. O depoimento das testemunhas e a história do profeta são textos importantes e sagrados, mas as demais explicações antes de 1 Néfi não são escrituras. Os cabeçalhos dos capítulos não são escritura. Não havia divisão de capítulos e números, e não havia notas de rodapé no manuscrito original. A introdução do Livro de Mórmon mudou de tempos em tempos, assim como outros aspectos que facilitam a leitura e a localização de passagens no texto.
Por exemplo, em 1829, o prefácio do Livro de Mórmon era assim (e vou traduzir uma pequena parte, pois você pode ver isso no Joseph Smith Papers):
“Para o leitor - Como muitas histórias falsas foram divulgadas a respeito do trabalho a seguir, e também muitas medidas ilegais tomadas por pessoas malignas que planejaram me destruir, e também destruir essa obra, informo que traduzi, pelo dom e poder de Deus, (...) cento e dezesseis páginas, que tirei do Livro de Leí, que era um relato resumido das placas de Leí, pela mão de Mórmon; (...)” [18]
Não é interessante que o próprio Joseph Smith decidiu colocar no começo do Livro de Mórmona história das 116 páginas perdidas? Mas além disso, e para o ponto que estou tentando afirmar aqui: não temos tal relato na nossa introdução do Livro de Mórmon hoje. E isso não muda nada na escritura! A introdução do Livro vem sendo editada de tempos em tempos. E isso é normal.
A versão de 1981 da Introdução ao Livro de Mórmon descrevia o povo lamanita como "os principais ancestrais dos índios americanos". Mas isso mudou. Isso não era escritura. A versão de 2006 da introdução do Livro de Mórmon foi alterada para descrever o povo lamanita como "um dos ancestrais dos índios americanos". A razão oficial dada para esta mudança foi “fornecer clareza e maior precisão.” [19]
Talvez os editores, sempre com a aprovação da liderança da Igreja, evidentemente, tenham sugerido essa última mudança devido às descobertas da ciência. Talvez não. O fato é que essa mudança no texto introdutório não diz que os indígenas não são descendentes dos lamanitas, nem afirma que muitos deles o são. Simplesmente diz que os lamanitas estão entre os nativos americanos.
O "medo" da Igreja de descobertas cientificas que possam vir a desacreditar o Livro de Mórmon
A Igreja tem medo da ciência? Tem receio que descobertas cientificas possam desacreditar o Livro de Mórmon? Absolutamente não!
O Presidente Brigham Young (1801–1877) disse:
“Não existe verdade que não pertença ao evangelho. (...) Se puderem encontrar uma verdade nos céus [ou] na Terra (...), ela pertence à nossa doutrina.” [20]
Nosso profeta, o Presidente Russell M. Nelson, renomado cirurgião cardíaco, falou sobre como a religião e a ciência se encaixam. Ele disse:
“Não existe conflito entre ciência e religião. (...) O conflito decorre de um conhecimento incompleto, quer da ciência, quer da religião, ou de ambos. (...) Quer a verdade provenha de um laboratório científico ou por revelação de Deus, ela é compatível.” [21]
A Igreja não tem medo da ciência. Vários dos apóstolos que serviram ao longo dos anos eram cientistas - incluindo Orson Pratt (matemático), James E. Talmage (geólogo), John A. Widtsoe (químico), Richard G. Scott (cientista nuclear) e Henry B. Eyring (educador). Muitos deles harmonizam ciência e religião e testificam não haver conflito, pois toda verdade vem de Deus.
Daniel C. Peterson disse:
“As pessoas que optam por rejeitar o Livro de Mórmon devem encontrar as suas próprias ideias para explicá-lo e as evidências crescentes da sua autenticidade. E embora nunca possamos “provar” que o Livro de Mórmon é verdadeiro, a trajetória das evidências sugere fortemente que ele é exatamente o que afirma ser, um livro digno de nosso estudo profundo, reflexão e oração pessoal séria. Milhares de horas de pesquisa produziram o atual florescimento dos estudos do Livro de Mórmon que abençoam a vida dos santos dos últimos dias. Eles não podem ser deixados de lado facilmente.” [22]
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NOTAS
[1] Página-título do Livro de Mórmon - https://www.churchofjesuschrist.org/study/scriptures/bofm/bofm-title?lang=por
[2] D&C 28:11-16, D&C 30:6, D&C 32:2, etc.
[3] Ver "Lamanitas" em Guia de Estudo para as Escrituras - https://www.churchofjesuschrist.org/study/scriptures/gs/lamanites?lang=por
[4] Thomasson, Gordon C. I Have a Question: What exactly does the word ‘Lamanite’ mean?, Ensign, Vol. 7. no. 9 (1977):39-40. https://www.churchofjesuschrist.org/study/ensign/1977/09/i-have-a-question/what-exactly-does-the-word-lamanite-mean?lang=eng
[7] Byron R. Merrill, “Joseph Smith and the Lamanites,” in Joseph Smith: The Prophet, The Man, ed. Susan Easton Black and Charles D. Tate Jr. (Provo, UT: Religious Studies Center, Brigham Young University, 1993), 187–202. https://rsc.byu.edu/joseph-smith-prophet-man/joseph-smith-lamanites
[8] "Identidade lamanita", Tópicos da História da Igreja - https://www.churchofjesuschrist.org/study/history/topics/lamanite-identity?lang=por
[9] Lane Johnson, "Who and Where Are the Lamanites?" Ensign 5, no. 12 (December 1975): 14–15
[10] Christensen wrote this in the Church's Spanish-language magazine Liahona in 1976. Ross T. Christensen, "¿Son lamanitas todos los indios americanos?" Liahona 22, no. 11 (November 1976): 8–9
[11] Anthony W. Ivins, a member of the First Presidency, said this at the April 1929 General Conference.
[12] “O Livro de Mórmon e as pesquisas de DNA” https://www.churchofjesuschrist.org/study/manual/gospel-topics-essays/book-of-mormon-and-dna-studies?lang=por
[13] Crawford,Origins of Native Americans, 49–51, 239–41, 260–61.
[14] Na Islândia, os cientistas têm lutado para correlacionar os perfis genéticos de certas populações com os registos genealógicos devido a estes problemas que surgem com os testes de ADN.
Na Grã-Bretanha, as assinaturas de ADN dos migrantes romanos e africanos na ilha foram perdidas ou diluídas em migrações anglo-saxónicas e casamentos mistos posteriores.
Os cientistas fizeram testes genéticos em esqueletos da cidade portuária mediterrânea de Ashkelon e concluíram:
A população do início da Idade do Ferro era geneticamente distinta devido a uma mistura relacionada com a Europa. Este sinal genético não é mais detectável na população posterior da Idade do Ferro. Nossos resultados apoiam que um evento de migração ocorreu durante a transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro em Ashkelon, mas não deixou uma assinatura genética duradoura.
Ver:
- Michal Feldman et al., "Ancient DNA sheds light on the genetic origins of early Iron Age Philistines," Science Advances 5, no. 7 (2019): 1–10
- Ann Gibbons, "DNA reveals European roots of the ancient Philistines," Science 365, no. 6648 (July 2019): 17
- Stephen Leslie et al., "The fine-scale genetic structure of the British population," Nature 519 (2015): 309–314
- Andy Coghlan, "Ancient invaders transformed Britain, but not its DNA," New Scientist, March 18, 2015, accessed March 15, 2023
- Ann Gibbons, "There's no such thing as a 'pure' European—or anyone else," Science Magazine, May 15, 2017, accessed March 15, 2023
- Jennifer Raff, "If Mary Beard is right, what's happened to the DNA of Africans from Roman Britain?" The Guardian, August 9, 2017, accessed March 15, 2023
- Agnar Helgason et al., "A Populationwide Coalescent Analysis of Icelandic Matrilineal and Patrilineal Genealogies: Evidence for a Faster Evolutionary Rate of mtDNA Lineages than Y Chromosomes," American Journal of Human Genetics 72, no. 6 (2003):1370-88
- S. Sunna Ebenesersdóttir et al., "Ancient genomes from Iceland reveal the making of a human population," Science 360, no. 6392 (2018): 1028–1032
- Michael Price, "Iceland's founding fathers underwent a rapid, 1000-year genetic shift," Science, May 31, 2018, accessed March 15, 2023
[15] Ugo A. Perego, “The Book of Mormon and the Origin of Native Americans from a Maternally Inherited DNA Standpoint,” in No Weapon Shall Prosper: New Light on Sensitive Issues, ed. Robert L. Millet (Provo, UT: Religious Studies Center, Brigham Young University, 2011), 171–217.
[16] Idem a Nota 11
[17] O Estado de São Paulo A11 - 02/04/13, Facebook: https://www.facebook.com/photo/?fbid=10200163941245209&set=a.1606435044725
[18] https://www.josephsmithpapers.org/paper-summary/preface-to-book-of-mormon-circa-august-1829/1#facts
[19] Entre os “ajustes aprovados” feitos estava a mudança na introdução, conforme resumo publicado pela Igreja. Introdução, par. 2, última frase - Alterada a frase “eles são os principais antepassados” para “eles estão entre os antepassados”, proporcionando clareza e maior precisão, de modo que a declaração seja: “. . . todos foram destruídos, exceto os lamanitas, e eles estão entre os ancestrais dos índios americanos”. "Summary of Approved Adjustments for the 2013 Edition of the Scriptures," The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 2013
[20] Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, 1997, pp. 16–17.
[21] Russell M. Nelson, em Marianne Holman Prescott, “Church Leaders Gather at BYU’s Life Sciences Building for Dedication”, Church News, 17 de abril de 2015, LDS.org.
[22] Mounting Evidence for the Book of Mormon, https://www.churchofjesuschrist.org/study/ensign/2000/01/mounting-evidence-for-the-book-of-mormon?lang=eng
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