Jeremy Runnells lista oito “problemas” com relação ao Livro de Mórmon. Irei abordar isso neste artigo. Neste artigo tratarei do primeiro. Os “erros nas edições da Bíblia reproduzidos no Livro de Mórmon”. O artigo é um pouco extenso, portanto, você pode ler um resumo das respostas neste outro artigo.
Erros nas edições da Bíblia reproduzidos no Livro de Mórmon
O Livro de Mórmon contém citações de autores bíblicos, como Isaías e Malaquias [1]. O Livro de Mórmon foi primeiramente traduzido para o inglês, de placas de metal, que continham escritos numa língua antiga [2].
A Bíblia em inglês mais popular na época de Joseph Smith era a versão do Rei James, ou “King James Bible”[3].
A acusação de Runnells em sua carta é que o Livro de Mórmon contém empréstimos de palavras e frases da Bíblia do Rei James que não faziam parte das citações originais dos autores bíblicos. Ou seja, nas línguas mais antigas em que a Bíblia foi escrita - grego, hebraico e aramaico - essas palavras e frases não estavam presentes, mas foram adições ou erros perpetuados na tradução de uma língua mais antiga para o inglês. Portanto, essas citações e empréstimos de palavras e frases contêm o que hoje é considerado por estudiosos e críticos como erros de tradução.
Assim, alguns críticos acreditam que os erros da Bíblia em inglês, que estão também no Livro de Mórmon, são evidências de plágio por parte de Joseph Smith na criação do Livro de Mórmon. Eles dizem que Joseph não traduziu o Livro de Mórmon, mas copiou partes da Bíblia, especificamente de uma edição de 1769 da Bíblia do Rei James [4].
O autor da Carta do SEI pergunta:
"O que os erros da edição de 1769 da versão King James estão fazendo no Livro de Mórmon? Um suposto texto antigo? Erros que são exclusivos da edição de 1769 que Joseph Smith possuía?".
Outros críticos se concentram em uma declaração de Joseph Smith, que afirmou que o Livro de Mórmon é "o livro mais correto" e perguntam: "Se o Livro de Mórmon é mesmo 'o livro mais correto de todos na terra', por que ele conteria erros de tradução que existiam na Bíblia King James?"
Vamos falar sobre isso. Eis algumas questões que gostaria de debater em relação aos supostos erros de tradução da Bíblia em inglês e a tradução do Livro de Mórmon:
- Os alegados "erros de tradução" são realmente erros?
- Esses “erros” são realmente uma evidência de que Joseph Smith estava plagiando a Bíblia em inglês? É preciso verificar se Joseph estava copiando uma edição da Bíblia do Rei Tiago de 1769, pois essa é a edição que Joseph supostamente possuía.
O que é um erro na tradução de uma escritura
Um erro de tradução ocorre quando uma palavra no idioma de origem é traduzida para uma palavra incorreta no idioma de destino. Por exemplo, traduzir a palavra portuguesa "pasta" para o inglês como "folder" é um erro, pois "pasta" significa "briefcase", e a palavra para "folder" em português seria "pasta de arquivo".
As palavras não têm significado inerente; elas adquirem significado através do uso e do entendimento dentro de uma comunidade linguística.
Pasta em português é uma coisa, a mesma palavra me inglês tem um significado completamente diferente,
pasta é massa, macarrão. Assim, embora palavras possam ser usadas de maneiras diferentes, elas não podem significar qualquer coisa que uma pessoa decidir. Deve ser levado em consideração a comunidade linguística para se compreender a mensagem e permitir uma comunicação confiável.
Além disso, o significado de uma palavra pode mudar ao longo do tempo. Um exemplo de uma palavra em português cujo significado mudou ao longo do tempo é "bicho". Originalmente, "bicho" significava qualquer tipo de animal, sem conotação específica. Ao longo do tempo, em algumas regiões do Brasil, a palavra passou a ser usada de maneira mais específica para se referir a insetos ou pequenas criaturas. Além disso, "bicho" também adquiriu um sentido coloquial e carinhoso em algumas gírias, sendo usado para se referir a pessoas, especialmente estudantes universitários, como em "bicho de calouro" (um novo aluno na universidade).
Originalmente, "rapariga" significava simplesmente "jovem menina" ou "moça" em Portugal e ainda é usada com esse sentido por lá. No entanto, no Brasil, a palavra passou a ter uma conotação pejorativa, sendo frequentemente utilizada como um termo ofensivo para se referir a uma mulher de moral duvidosa.
Os dicionários de tradutores que usamos hoje, especialmente aqueles que lidam com línguas antigas, estão em constante evolução à medida que novas evidências sobre o uso das palavras se tornam disponíveis. Isso significa que erros de tradução percebidos hoje podem não ter sido realmente erros de tradução; apenas precisamos esperar por mais evidências.
Devemos também observar que não temos nenhum dos manuscritos originais da Bíblia. Os documentos originais da Bíblia, conhecidos como autógrafos, não foram preservados. O que temos são cópias antigas, mas não os autógrafos. Comparada a outros textos do Mundo Antigo, a Bíblia é um livro extremamente bem preservado, com um grande número de cópias antigas. Isso é especialmente verdadeiro para o Novo Testamento, mas também se aplica ao Antigo Testamento, particularmente após a descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto. [5]
Um manuscrito mais antigo não é necessariamente melhor que um mais recente, mas geralmente, um manuscrito mais antigo, que não passou por muitos processos de cópia, tem maior chance de conter menos erros de transcrição.
As traduções modernas do texto bíblico que temos hoje vêm das cópias mais antigas conhecidas dos manuscritos originais, disponíveis para os tradutores na época de suas respectivas traduções. Há muitas traduções possíveis de um mesma fonte (veja *observação abaixo)
Qualquer afirmação de que o Livro de Mórmon usa uma tradução "errônea" da Bíblia do Rei James será, no mínimo, um pouco suspeita por esse simples fato. Não gostaríamos de ter os manuscritos originais, como compostos pelo autor original, antes de fazer uma afirmação definitiva de que uma tradução específica está "errada"? Temos cópias dos manuscritos, e elas podem reproduzir o texto dos originais de forma confiável, mas não há razão para ter certeza. Há bons motivos para duvidar disso, incluindo o fato de que o Livro de Mórmon e Joseph Smith ensinam que os manuscritos bíblicos existentes não reproduzem com precisão o texto original. Nossa regra de fé afirma que cremos ser a Bíblia a Palavra de Deus, desde que seja traduzida corretamente.
Por outro lado, não se pode afirmar definitivamente que o Livro de Mórmon preserva a versão original e intocada dos textos bíblicos que cita ou alude. Em alguns casos, simplesmente não podemos saber se ele o faz. Se "traduzir" é definido apenas como "reproduzir o texto produzido em um idioma em um idioma diferente", então talvez possamos declarar uma determinada tradução como "errada". No entanto, a tradução tem o potencial de ser concebida de maneira mais ampla e inclusiva, e Joseph Smith parece ter entendido nesse sentido mais amplo. Essa visão mais ampla da tradução inclui coisas como expor o texto e fazer emendas para esclarecer a intenção do autor ou tornar a tradução mais legível e compreensível para o público do tradutor.
Sei bem como é esse processo de traduzir e tornar algo mais compreensível em outro idioma. Como estudante internacional em um país estrangeiro, tinha que encontrar não apenas palavras correspondentes ao meu idioma para explicar algo num idioma diferente Eu também precisava interpretar uma história de modo a fazer sentido no contexto linguístico-cultural em que eu me encontrava. E isso não apenas em conversas informais, mas em contextos técnicos. Em vez de usar o termo "jurisprudência", pro exemplo, quanto eu estava no mestrado, eu preferia "precedentes judiciais" (judicial precedents), pois era o termo que melhor transmitia o conceito que eu tentava transmitir para os meus colegas e professores americanos. Se eu usasse o termo "jurisprudence" possivelmente os professores entenderiam o que eu estava querendo dizer, mas não era o termo mais apropriado.
O mesmo acontece nas traduções de escrituras. Não é apenas uma questão de achar uma palavra correspondente - que às vezes nem existe no idioma a ser traduzido - mas de transmitir o conceito.
Uma mesma passagem muitas possíveis traduções - e a revelação
Gosto de exemplificar isso com a passagem de Malaquias 4. Quando o anjo Morôni apareceu para o profeta Joseph Smith, “citou parte do terceiro capítulo de Malaquias; e citou também o quarto ou último capítulo da mesma profecia, embora com pequena variação do modo como aparece na Bíblia.”
Essa "pequena variação" pode revelar algo importante para nós sobre traduções e escrituras.
No Livro de Mórmon, o Senhor ressurreto ordenou que os nefitas “escrevessem as palavras que o Pai transmitira a Malaquias, as quais ele lhes diria. E aconteceu que, depois que foram escritas, ele as explicou.” Em 06 de setembro de 1842, temos também a citação de Malaquias numa carta do Profeta Joseph Smith, hoje registrada como Seção 128 de Doutrina e Convênios.
Eis um quadro comparativo das quatro passagens em português (fiz o mesmo quadro em inglês nas notas, ver Nota [6]):
Malaquias 4 | 3 Néfi 25 | Joseph Smith - História 1:36-39 | D&C 128 |
Aproximadamente 430 a.C. | Aproximadamente 34 d.C. | 1838 | 6 de setembro de 1842 |
Malaquias | Jesus Cristo | Anjo Morôni | Joseph Smith |
Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo. (v. 1) | Pois eis que vem o dia que arderá como um forno; e todos os soberbos, sim, e todos os que cometem iniquidade serão como palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de modo que não lhes deixará nem raiz nem ramo. (v. 1) | Porque eis que vem o dia que arderá como fornalha e todos os soberbos, sim, e todos os que cometem impiedade, queimarão como a palha; e aqueles que hão de vir os abrasarão, diz o Senhor dos Exércitos, de sorte que lhes não deixarão nem raiz nem ramo. (v. 37) |
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Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; (v. 5) | Eis que eu vos enviarei Elias, o profeta, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor; (v. 5) | Eis que eu vos revelarei o Sacerdócio, pela mão de Elias, o profeta, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. (v. 38) | Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; (v. 17) |
E ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição. (v. 6) | E ele voltará o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a Terra com maldição. (v.6) | E ele plantará no coração dos filhos as promessas feitas aos pais; e o coração dos filhos voltar-se-á para seus pais. Se assim não fosse, toda a terra seria totalmente devastada na sua vinda. (v. 39) | e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição. (v. 17)
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Com esse quadro, quero demonstrar que uma mesma passagem pode ser traduzida de modo diferente para enfatizar determinado aspecto da doutrina. Como Joseph Smith afirmou ao citar Malaquias 4 na Seção 128 de Doutrina e Convênios:
“Eu poderia ter feito uma tradução mais clara, mas é suficientemente clara como está, para servir ao meu propósito.” (D&C 128:18).
Na ocasião em que ele escreveu essa carta, ele não apenas já havia recebido a visitação do anjo Morôni (19 anos antes), como também já havia traduzido o Livro de Mórmon (13 anos antes) e a Bíblia (9 anos antes). Definitvamente ele já tinha tido bastante contato com a escriturade Malaquias 4. Mas, ao escrever a epístola (hoje seção 128 de Doutrina e Convênios), ele decidiu citar a passagem de forma idêntica à que se encontrava na Bíblia da maioria dos seus leitores em 1842, pois era “suficientemente clara” para “servir ao [seu] propósito”. Certamente ele poderia citar outra tradução possível do texto em outro momento, caso julgasse necessário, não apenas por ter aprendido outras possíveis traduções (com ose mostrou no quadro acima), mas por ser um profeta capaz de revelar o significado das escrituras antigas.
Falando do tema de profeta e escrituras, gosto muito da explicação de Pedro quando presta seu testemunho sobre revelação:
“E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:19-21)
Pedro confiava nas palavras dos profetas e admoestou a Igreja a estar atenta a essas palavras, que eram como “uma luz que alumia em lugar escuro”. Interessante que ele usou a analogia do amanhecer, onde a luz gradualmente afugenta a escuridão. Isso demonstra o processo mais comum de revelação, onde o Senhor dá a verdade “linha sobre linha, preceito sobre preceito” ao penitente (Isaías 28:10, 13; D&C 98:12, 128:21). Sim, “revelação sobre revelação, conhecimento sobre conhecimento” (D&C 42:61).
Elder David A. Bednar ensinou exatamente sobre isso. Ele disse que podemos “aprender muito sobre o espírito de revelação” ao observarmos “duas experiências comuns com a luz”. A primeira é de entrar num quarto escuro e acender a luz. O que antes era invisível e incerto se torna claro e reconhecível. A segunda experiência ocorre quando se observa a noite tornar-se dia:
“Em contraste com o acender a luz no quarto escuro, a luz do amanhecer não apareceu imediatamente. Em vez disso, a intensidade da luz aumentou gradual e continuamente, e a escuridão da noite foi substituída pela radiante manhã. Por fim, o sol apareceu acima do horizonte. Porém, a evidência visual da chegada iminente do sol estava presente horas antes de ele realmente aparecer no horizonte. Essa experiência caracterizou-se pelo discernimento sutil e gradual da luz.” [7]
“O aumento gradual de luz que irradia do sol nascente é como receber uma mensagem de Deus “linha sobre linha, preceito sobre preceito” (2 Néfi 28:30). Mais frequentemente, a revelação vem em pequenos incrementos ao longo do tempo e é dada de acordo com o desejo, a dignidade e a preparação. Essas comunicações do Pai Celestial gradual e mansamente “[destilam-se] sobre [nossa] alma como o orvalho do céu” (D&C 121:45). Esse padrão de revelação tende a ser mais comum do que raro.” [8]
Agora, se voltarmos ao ensinamento de Pedro de que nossa atenção às “palavras dos profetas” pode ser revelada “como uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações”, entenderemos melhor seu conselho direto de “que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:19-21)
Em outras palavras, e para a finalidade de meu argumento, interpretar um texto de escritura da maneira mais correta deve necessariamente contar com auxílio divino. Já que “os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”, precisamos de uma porção deste mesmo espírito para discernir o que realmente desejam transmitir quand oestavam falando inspirados.
Assim, as traduções que temos das escrituras, certamente às vezes incorretas e falhas, precisam sempre do espírito de Deus para serem apropriadamente interpretadas.
Com isso em mente, vamos continuar o debate sobre tradução.
Frequentemente esquecemos que há três camadas que devemos identificar para entender um texto escrito:
(1) o que está na mente do autor e o que ele ou ela pretendia escrever,
(2) o que está realmente escrito, e
(3) nossas próprias definições de palavras, que impactam como interpretamos o que um autor escreve.
Quando se trata de uma escritura, como falei há pouco, devemos seguir a admoestação de Pedro - e não usar uma “particular interpretação”, mas sim, buscar o Espírito Santo ao mesmo tempo em que nos esforçamos para entender “pelo estudo e pela fé” (D&C 109:14). Tal como o amanhecer elimina gradualmente a escuridão, a luz da revelação pode vir aos poucos, até discernirmos o verdadeiro significado de uma escritura.
Se não fizermos isso, podemos correr o risco de aprender sempre, e nunca chegar ao conhecimento da verdade (2 Timóteo 3:7).
Quando se trata de uma tradução, há um desafio adicional para comunicação. A própria tradução e sua relação com o texto-fonte (ou o texto original). Às vezes, um tradutor tem seus próprios objetivos, peculiaridades, filosofias sobre tradução e fraquezas. Um tradutor pode esclarecer ou obscurecer o significado e o conteúdo do texto original. Um segundo tradutor pode optar por uma tradução alternativa, com outras expressões e palavras, que, segundo seu modo de pensar, melhor se adequam. Todos esses fatores exigem alguma humildade de nossa parte. Com base nas evidências e no conhecimento atuais, alguns estudiosos e críticos consideram erradas algumas partes da tradução da Bíblia King James. E por isso acusam o Livro de Mórmon de reproduzir tais erros.
Joseph Smith plagiou a Bíblia
Vamos verificar essa acusação de que Joseph Smith teria copiado partes da Bíblia. Primeiro, Joseph Smith provavelmente não tinha a versão da Bíblia do Rei James mencionada na Carta ao Diretor do SEI. Stan Spencer explicou:
“Embora a Bíblia usada como texto base para o Livro de Mórmon fosse certamente a do Rei James, provavelmente não foi a edição Oxford de 1769, na qual a maioria das Bíblias King James hoje se baseiam. O texto dessa edição não foi usado uniformemente nas Bíblias do Rei James até depois da tradução do Livro de Mórmon. Muitas edições americanas distintas da Bíblias do Rei James foram impressas na última parte do século XVIII e no início do século XIX, e estas, juntamente com as Bíblias do Rei James contemporâneas de Cambridge, tinham muitas pequenas diferenças em relação à edição de Oxford de 1769, algumas dos quais serviram para modernizar a linguagem. Algumas dessas edições correspondem mais ao Livro de Mórmon do que a edição de 1769 - a Bíblia de Phinney Cooperstown de 1828 e a edição oitava da Sociedade Bíblica Americana de 1819 estão entre as mais próximas.”
“O uso da tradução da Bíblia do Rei James como texto base para passagens bíblicas no Livro de Mórmon faz sentido, pois permite que quaisquer diferenças importantes sejam facilmente vistas. Uma retradução completamente independente dos capítulos de Isaías teria diferido mais na redação do que no significado. As diferenças nas palavras teriam suscitado críticas infrutíferas sobre a adequação da escolha das palavras no Livro de Mórmon. O uso do texto da Bíblia do Rei James impede tal desvio de atenção das mensagens pretendidas do Livro de Mórmon. Mesmo para interações bíblicas curtas, o uso do texto da Bíblia do Rei James torna mais claro que a Bíblia está realmente sendo citada ou aludida. Uma tradução independente dessas passagens mais curtas teria diferido o suficiente na redação da Bíblia do Rei James, de modo que algumas dessas interações teriam sido menos claras."
Aliás, neste ponto deixe-me explicar que o Livro de Mórmon cita a Bíblia algumas vezes, temos muitas palavras de Isaías e, como já mencionai algumas de Malaquias e outros profetas. Os escritores do Livro de Mórmon eram israelitas e citavam escrituras que amavam. Em 1961, o Hugh Nibley disse algo brilhante, que usarei como parte da minha explicação:
“Um dos argumentos mais devastadores contra o Livro de Mórmon foi que ele realmente citava a Bíblia. Os primeiros críticos ficaram simplesmente chocados com a incrível estupidez de incluir grandes seções da Bíblia num livro que eles insistiam ter sido concebido especificamente para enganar o público leitor da Bíblia. Eles gritaram “blasfêmia” e “plágio” a plenos pulmões, mas hoje qualquer estudioso da Bíblia sabe que seria extremamente suspeito se um livro que pretendia ser o produto de uma sociedade de emigrantes piedosos de Jerusalém nos tempos antigos não citasse a Bíblia. Nenhum longo escrito religioso dos Hebreus poderia ser genuíno se não estivesse cheio de citações bíblicas.” [8]
Mencionar escrituras não é plágio, é citação! Néfi e o Salvador geralmente deixam isso claro quando citam Isaías. Independentemente de um autor moderno ou antigo ser responsável pelo texto do Livro de Mórmon, citar fontes diretamente não é plágio. No máximo, tudo o que podemos dizer é que Joseph Smith (ou seus supostos co-conspiradores) estão usando Isaías ao acaso para criar o Livro de Mórmon, e não o plagiando.
Além disso, alguns trechos nem podem ser considerados citações, mas escrituras novas. O Sermão da Montanha em Mateus 5-7 não é idêntico ao Sermão do Templo em 3 Néfi 12-14. Existem similaridades, mas também muitas diferenças [9].
Na nota de rodapé de 2 Néfi 12:2 (em inglês), lemos: “A comparação com a Bíblia do Rei James em inglês mostra que há diferenças em mais da metade do 433 versículos de Isaías citados no Livro de Mórmon, enquanto cerca de 200 versículos têm a mesma redação da Bíblia". Como isso podemos ver que Néfi estava suficientemente envolvido com o texto e fazendo alterações em Isaías que “comparam” as mensagens de Isaías à situação atual e ao entendimento teológico dele (1 Néfi 19꞉23). Também pode-se demonstrar que Néfi estava selecionando passagens de Isaías com uma agenda teológica predominante e coerente. Assim, em vez de copiar e colar sem pensar, há um envolvimento significativo com o texto de Isaías no Livro de Mórmon.
Uma análise mais detalhada desses textos duplicados entre Livro de Mórmon e Bíblia, na verdade nos fornece uma testemunha adicional da autenticidade do Livro de Mórmon. Você lerá no cabeçalho de capítulos que citam partes da Bíblia algo como “comparar com Isaías 14”. Faça isso. Compare as escrituras.
Um exemplo. Um versículo em 2 Néfi 12:16 não apenas difere, mas adiciona uma frase completamente nova a versão do Rei James: "E sobre todos os navios do mar." Essa adição está de acordo com a versão grega (Septuaginta) da Bíblia, que foi traduzida para o inglês pela primeira vez em 1808 por Charles Thomson, mas provavelmente não era de conhecimento de Joseph Smith em 1829. Também está contida na tradução de 1535 da Bíblia de Coverdale. Mas não está na Bíblia mais popular em inglês, a que Joseph e seus contemporâneos mais usavam: a versão do Rei James.
Muitas das variações de Isaías na tradução do Livro de Mórmon têm apoio antigo. O professor da BYU, Paul Y. Hoskisson, demonstrou que "a versão das placas de bronze de Isaías 2:2, conforme contida em 2 Néfi 12:2, contém uma pequena diferença, não atestada em nenhuma outra testemunha de Isaías anterior a 1830, que não apenas ajuda a esclarecer o significado, mas também vincula o verso aos eventos da Restauração. A mudança faz isso introduzindo um hebraísmo que seria impossível para Joseph Smith ter produzido por conta própria.
“Esses fatores complicam muito as teorias de críticos de que Joseph Smith apenas copiou de Isaías da versão em inglês do Rei James. Por que Joseph Smith copiaria a versão do Rei James incluindo todos os seus erros de tradução, mas de alguma forma encontraria a frase "sobre todos os navios do mar" da Septuaginta grega e da Bíblia de Coverdale de 1535? Como ele poderia garantir que sua tradução de Isaías tivesse apoio de renderizações antigas de Isaías e garantir que sua versão de Isaías no Livro de Mórmon tivesse hebraísmos autênticos feitos parte do texto também? É obviamente possível que ele tenha feito isso, mas altamente improvável.” [10]
As testemunhas da tradução são unânimes em afirmar que nenhuma Bíblia foi consultada durante a tradução do Livro de Mórmon.[11]
Stan Spencer observou,
“[Se] Joseph Smith usasse uma Bíblia física, ele teria que fazê-lo com frequência, uma vez que as interações bíblicas estão espalhadas por todo o Livro de Mórmon. Tirar continuamente o rosto do chapéu para usar uma Bíblia física não teria passado despercebido por aqueles que o assistiram traduzir.” [12]
Na verdade, dadas as diferentes citações de capítulos inteiros, as interações frasais entre o Velho Testamento e o Livro de Mórmon, bem como as interações e semelhanças frasais entre o Novo Testamento e o Livro de Mórmon, conceber Joseph memorizando essas passagens e frases (um processo para o qual não há evidências) ou consultar uma Bíblia durante a tradução (também não há evidências) é forçoso. Alguém teria notado isso. No entanto, ninguém relata uma Bíblia, e alguns são especificamente claros ao afirmar que ele não tinha nenhum livro ou manuscrito ao qual se referisse.[13]
O estudioso santo dos últimos dias Royal Skousen, usando os manuscritos originais e impressos do Livro de Mórmon, forneceu um argumento persuasivo de que nenhuma parte da linguagem do Rei James contida no Livro de Mórmon poderia ter sido copiada diretamente da Bíblia. Ele deduz isso do fato de que quando o Livro de Mórmon cita, ecoa ou faz alusão a passagens da Bíblia King James, Oliver (o escriba de Joseph para o Livro de Mórmon) consistentemente escreve incorretamente certas palavras do texto que ele não usaria se estivesse copiando [14].
Claro, é possível que Joseph Smith tenha ditado todas as partes do Livro de Mórmon que citam Isaías para Oliver enquanto olhava a Bíblia aberta em sua frente, e Oliver não. Mas isso é menos provável dada a consistência com que Oliver escreve as palavras incorretamente no pergaminho mencionado.
Ao considerar os dados, Skousen propõe que, em vez de Joseph ou Oliver olharem para uma Bíblia, Deus foi simplesmente capaz de fornecer a página do texto da Bíblia do Rei James à mente de Joseph e então Joseph foi livre para alterar o texto como quisesse. Nos casos em que o Livro de Mórmon simplesmente faz alusão ou ecoa a linguagem da da Bíblia do Rei James, talvez o Senhor tenha permitido que essas partes do texto fossem reveladas de tal forma que seriam mais compreensíveis e confortáveis para o público do século XIX. Mesmo que Joseph Smith estivesse usando a Bíblia do Rei James durante seu processo de tradução, na mesa de tradução como texto base, isso não estaria em desacordo com as melhores práticas de tradutores e dificilmente seria considerado plágio. Os dados disponíveis de testemunhas oculares e manuscritos são mais consistentes com a teoria de que a Bíblia do Rei James foi usada como texto base, mas por meio da revelação divina de Deus, e não abertamente sobre a mesa.
Skousen e o lingüista santo dos últimos dias Stanford Carmack estão convencidos de que Joseph Smith apenas leu as palavras da pedra do vidente ou Urim e Tumim e não consultou a Bíblia durante a tradução do Livro de Mórmon. A razão pela qual eles acreditam nisso é que o Livro de Mórmon contém um inglês mais antigo em sua tradução. Eles fornecem muitos exemplos que acreditam ser anteriores ao inglês de Joseph, e ao inglês usado na edição de 1769 da Bíblia do Rei James e até mesmo à edição de 1600 da Bíblia do Rei James. Skousen e Carmack produziram muitos argumentos a favor desta posição.
Numa publicação de 2018 intitulada A Natureza da Língua Original, Royal Skousen identificou 41 casos no Livro de Mórmon em que uma palavra parece ter um “significado arcaico distinto” que tais expressões ou palavras não existiam mais em inglês na época do Profeta Joseph Smith. Os significados destas palavras datavam da década de 1530 até a década de 1730.
Isso não quer dizer que as próprias palavras não fossem familiares ao público inglês da época de Joseph Smith. Na maior parte, eles ainda estavam em uso quando o Livro de Mórmon foi publicado pela primeira vez, como estão hoje. Acontece que a forma como às vezes são usadas as palavras no Livro de Mórmon já estavam desatualizadas em 1829. Um resultado interessante é que o vocabulário do livro muitas vezes parece antigo ou arcaico, sem ser incompreensível para o público moderno.
Além de termos de vocabulário independentes, Skousen identificou frases (25 ocorrências), gramática (13 ocorrências) e dialeto (14 ocorrências) que também manifestam vários graus de arcaísmo, resultando em mais de 90 itens lexicais que se tornaram raros ou obsoletos em 1829. [15]
“Parece bastante improvável que todos esses usos de palavras pudessem ter feito parte da linguagem de Joseph Smith (sua linguagem deveria datar do início de 1800), embora Stanford Carmack e eu tenhamos procurado usos posteriores de todos esses itens lexicais — com esses mesmos significados [arcaicos], até agora não tivemos sucesso em encontrá-los na época de Joseph Smith.”[16]
Skousen concluiu que “é muito forte a evidência de que o texto original foi revelado a Joseph Smith palavra por palavra em inglês e ele o ditou aos seus escribas”. Ele “não foi, portanto, o autor do Livro de Mórmon nem mesmo o verdadeiro tradutor de seu texto em inglês”.[17] Em outras palavras, é provavelmente mais correto considerar o texto da tradução como tendo sido revelado por meio de Joseph Smith, em vez de do que derivar dele.
Se esta visão estiver correta, significaria também que ele não se limitou a redigir o texto, como muitos dos seus críticos assumiram. Sua linguagem simplesmente não parece ser a dele. Embora surpreendente e talvez até um tanto desconcertante, o uso generalizado de palavras e frases arcaicas no Livro de Mórmon apoia a afirmação consistente de Joseph Smith de que ele ditou o registro nefita pelo dom e poder de Deus.
Há uma última evidência que derruma a tese de que Joseph teria plagiado a Bíblia. Sabemos que Oliver Cowdery comprou uma Bíblia em 8 de outubro de 1829. No entanto, o Livro de Mórmon já estava no pronto nessa época, com os direitos autorais sendo registrados em 11 de junho de 1829.[18]
Antes dessa época, a única Bíblia à qual Joseph teve acesso era a Bíblia da família Smith, que não estava em sua posse depois que ele se casou e saiu da casa dos Smith. Joseph ficou pobre e ainda mais pobre depois de sair de casa.[19] Mesmo assim, Oliver comprou uma Bíblia para Joseph em outubro de 1829 na gráfica que fez a composição tipográfica do Livro de Mórmon. Esta Bíblia seria usada mais tarde para produzir a Tradução da Bíblia de Joseph Smith (TJS).[20] Dada a pobreza da família, por que comprar uma Bíblia se já tinham acesso a uma do Livro de Mórmon?
Erros na Bíblia e no Livro de Mórmon
Para concluir, alguns casos em que se afirma haver erros simplesmente não são erros. Alguns não são erros de tradução, mas sim traduções corretas de manuscritos bíblicos mais recentes. Os estudiosos da Bíblia normalmente gostam dos manuscritos mais antigos, pois geralmente contêm uma versão do texto com maior probabilidade de estar mais próxima do que o autor original queria que estivesse no texto. Às vezes, essa intuição está incorreta.
Às vezes casos apontados como um “erro” é somente um exemplo da natureza diacrónica da linguagem – isto é, a linguagem muda e evolui ao longo do tempo. Aquilo a que os tradutores da Rei James (ou talvez os seus predecessores) quiseram referir-se quando disseram “virtude”, por exemplo, não é a mesma coisa a que pretendemos nos referir quando dizemos “virtude”. Eles queriam se referir a algo como poder e nós queremos nos referir a algo como força para praticar o bem moral ou, às vezes, a castidade.
Nos dois casos abaixo, os “erros” não foram erros, mas sim um caso de tradutores modernos usando as convenções de seu idioma. Este é o caso de Isaías 6꞉2 e 6꞉6 (e passagens correspondentes em 2 Néfi 16꞉2 e 16꞉6 na edição de 1830 do Livro de Mórmon) com o uso da palavra "serafins" para se referir a múltiplos serafim(es). O problema é que o sufixo -im em hebraico já pluraliza a palavra serafim. Mas os tradutores da King James (ou talvez seus predecessores de tradução) também estão se referindo a múltiplos serafins, mas apenas usando as convenções do inglês, adicionando um "s" ao final da palavra. Este é o tipo de erro que um tradutor acadêmico evitaria, mas significa pouco neste contexto.
Em alguns casos, os erros são meramente variantes de tradução (em vez de erros no pleno sentido da palavra), onde uma variante não é necessariamente superior a outra. Isso ocorre porque o significado do hebraico ou grego subjacente é incerto.
Em alguns casos, o significado dos versículos foi alterado em relação ao texto original, mas não mudou tão drasticamente a ponto de não incluir o significado mais específico da passagem capturada em outras traduções. Nestes casos, a tradução só pode ser considerada demasiado ampla ou geral, em vez de necessariamente errada. É como dizer que “rei” se refere à realeza. Tecnicamente correto, mas poderia ser mais específico ("um determinado homem da realeza") para maior clareza.
Em alguns casos, os erros de tradução são erros legítimos. Estes erros alteram assim o significado de uma ou mais palavras nas respectivas passagens; mas nem sempre nos afastam da intenção original e geral das passagens.
Em alguns casos, os erros realmente nos afastam da intenção original e geral, mas isso não é uma coisa ruim, uma vez que a intenção alterada não reflete necessariamente uma compreensão doutrinária imprecisa. Em alguns casos, a intenção é alterada da intenção clara e original dos autores bíblicos para uma mensagem igualmente clara que não está necessariamente alinhada com a intenção do autor original. Chamaremos esse tipo de mudança de intenção de tipo inteligível. Em outros casos, a intenção original é alterada para uma mensagem ininteligível. Chama-se esse tipo de mudança de intenção de tipo ininteligível.
No caso de um tipo inteligível, podemos mostrar que o Livro de Mórmon confirma a intenção do autor bíblico original e a verdade da mensagem do texto conforme atualmente constituída no Livro de Mórmon em outras passagens do Livro de Mórmon. No caso do tipo ininteligível, podemos confirmar que a intenção do autor bíblico original já está claramente comunicada em outras partes do Livro de Mórmon.
Em muitos casos, é muito difícil (se não impossível) determinar com um grau confiável de certeza em qual das nove categorias acima a tradução se enquadra. Podemos apresentar argumentos razoáveis para encaixá-los em múltiplas categorias.
Em nenhum caso, entretanto, existe uma variante de tradução, ampliação de significado, mudança de significado, mudança de intenção, etc. que ensine doutrina incorreta ou de outra forma obrigue o leitor a acreditar em algo falso.
Skousen diz que “nehuma dessas objeções acadêmicas importa muito, já que o Livro de Mórmon é uma tradução criativa e cultural. Em outras palavras, o uso do texto Rei James, com todos os seus defeitos, não é apenas surpreendente, mas é de fato esperado.” [21]
A Bíblia do Rei James de 1769 e o uso de Itálicos
Uma pequena observação antes da conclusão. Até pensei em colocar isso como nota de rodapé, mas vou incorporar no texto principal mesmo.
Um dos argumentos de Jeremy Runnells é baseado no fato de que os itálicos presentes na versão do Rei James de 1769 são erros que foram reproduzidos no Livro de Mórmon. Já discutimos extensivamente sobre isso, afirmando que Joseph Smith provavelmente não tinha acesso a essa versão e que versões anteriores tinham erros semelhantes ou adicionais. Também mencionamos que as edições da Bíblia que mais se parecem com os textos do Livro de Mórmon são a Bíblia de Phinney Cooperstown de 1828 e a oitava edição da Sociedade Bíblica Americana de 1819, e não a edição de 1769.
Entretanto, Runnells inicialmente usou fontes não citadas nas primeiras edições da CES Letter e, posteriormente, uma versão antiga de uma página da Wikipedia, possivelmente deturpando os argumentos originais de escritores contra a Igreja sobre os erros de tradução no Livro de Mórmon. Grant H. Palmer, por exemplo, em "An Insider's View of Mormon Origins", baseou-se nos trabalhos de Wright e Larson, que datam a composição do Livro de Mórmon na década de 1830 devido ao uso aparente da edição de 1769 da Bíblia do Rei James, incluindo seus erros. O escritor da CES Letter parece ter entendido mal esses argumentos e se baseou em fontes equivocadas, enquanto as evidências indicam que os erros de tradução apontados por ele existem em outras edições da Bíblia em inglês, sugerindo ignorância ou desonestidade em suas afirmações.
Os tradutores da Bíblia do Rei James usaram itálicos para ajudar o leitor, pois ao traduzir de uma língua para outra, às vezes faltam palavras correspondentes ou expressões idiomáticas não são facilmente traduzíveis. Essas palavras, sem equivalentes no hebraico, aramaico ou grego, foram incluídas para tornar a tradução mais clara e legível, mas foram colocadas em itálico para que os leitores soubessem que não estavam nos manuscritos originais. Gordon Campbell, em "Bible: The Story of the King James Version", explica que Samuel Ward relatou em 1618 as regras que guiaram a criação da versão do Rei James, incluindo o uso de itálicos para palavras necessárias à compreensão do texto. F. H. A. Scrivener também apontou que os tradutores desta versão usaram itálicos para completar o significado da sentença quando necessário. Um exemplo da importância dos itálicos está em 2 Samuel 21:19 (em inglês), onde a omissão dos itálicos leva a uma interpretação errônea sobre quem matou Golias, corrigida pela presença dos itálicos. Portanto, os itálicos na Bíblia em inglês são para clarificação. [22].
Em Português temos alguns recursos semelhantes [24]. Há também mudanças, como em algumas versões, em que a palavra Jeová é substítuida por SENHOR. [25]
Assim, palavras em itálico não são necessáriamente erros. São mecanismos para melhorar a fluidez e compreensão de um texto antigo em uma língua moderna.
CONCLUSÃO
Na página-título do Livro de Mórmon, lemos: "Agora, se há falhas, são erros dos homens; não condeneis, portanto, as coisas de Deus, para que sejais declarados sem mancha no tribunal de Cristo."
Um dos escritores do Livro de Mórmon disse: "Nada escrevo nas placas, salvo o que considero sagrado. E agora, se erro, também os antigos erraram; não que outros homens me sirvam de desculpa, mas por causa da fraqueza que há em mim, segundo a carne, quero desculpar-me." (1 Néfi 19:6)
Já outro dos escritores do Livro de Mórmon afirmou que "se há falhas [no registro], [seriam] falhas de um homem". Contudo, ele não conhecia falha alguma; não obstante, afirmou: "Deus conhece todas as coisas; portanto, aquele que condena, que tenha cuidado para não se expor ao perigo do fogo do inferno". (Mórmon 8:17)
Penso que aqueles que acusam o Livro de Mórmon de conter falhas não consideram "as falhas e erros de tradução" do Novo Testamento em relação ao Velho Testamento. Quando Jesus, por exemplo, cita Salmos, o faz de forma um tanto diferente ao que temos registrado. Ninguém acusaria Jesus de desconhecer as escrituras ou de modificá-las impropriamente. Os aparentes erros que vemos acontecem pela diferença linguística de seu tempo em relação ao tempo em que a escritura foi primeiramente produzida; e também pelas traduções - o Velho Testamento vindo do hebraico e aramaico e o Novo Testamento do grego.
Quando compreendemos (1) a longevidade das escrituras, (2) a evolução das línguas, (3) os processos de tradução e (4) a bondade de Deus em repetir a mesma doutrina para diferentes povos, provando que Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre, em todas as nações e povos, ficaremos menos preocupados com os tais erros de tradução. Afinal, talvez, nem sejam realmente erros no texto, mas sim, erros na nossa percepção e entendimento.
Além disso, há muitas evidências que mostram que Joseph Smith não copiou o texto da Bíblia do Rei James de 1769 - ele não tinha uma Bíblia; evidências mostram estruturas e expressões presentes em versões e edições diferentes da Bíblia que não a do Rei James de 1769; erros ortográficos do esbriba indicam que erros foram produzidos durante um ditado; etc.)
Deus pode transmitir uma mesma escritura de diversas maneiras para melhor elucidar pontos doutrinários e enfatizar Sua Palavra.
O Livro de Mórmon contém a Palavra de Deus, e, muito frequentemente, aquilo que consideramos equivocado ou estranho pode, à medida que mais luz é revelada, mostrar-se adequado e correto. O Espírito Santo é essencial para sabermos a veracidade do Livro de Mórmon, do processo de tradução do Livro de Mórmon e de todas as coisas (Morôni 10:5).
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*OBSERVAÇÃO
A título de exercício vá ao site
bibliaonline.com.br e pesquise uma passagem da Bíblia em diferentes versões e edições. Eis um exemplo com
Malaquias 4:6:
ALMEIDA CORRIGIDA E FIEL - E ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição.
NOVA ALMEIDA ATUALIZADA - Ele converterá o coração dos pais aos seus filhos e o coração dos filhos aos seus pais, para que eu não venha e castigue a terra com maldição.
NOVA TRADUÇÃO NA LINGUAGEM DE HOJE - Ele fará com que pais e filhos façam as pazes para que eu não venha castigar o país e destruí-lo completamente.
NOVA VERSÃO INTERNACIONAL - Ele fará com que os corações dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos filhos para seus pais; do contrário eu virei e castigarei a terra com maldição
NOVA VERSÃO TRANSFORMADORA - Ele fará que o coração dos pais volte para seus filhos e o coração dos filhos volte para seus pais. Do contrário, eu virei e castigarei a terra com maldição
O LIVRO - A sua pregação tornará a juntar novamente pais e filhos, para que tenham um só coração, uma só mente. E saberão que, se não se arrependerem, virei e a sua terra será completamente destruída pela maldição
SOCIEDADE BÍBLICA BRITÂNICA - Ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha e fira a terra com anátema.
VERSÃO CATÓLICA - e ele converterá o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para os pais, de sorte que não ferirei mais de interdito a terra.
Esse exercício te dará a importante noção de como funciona uma tradução e como um mesmo texto pode ser disponibilizado de diferentes maneiras.
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NOTAS
[1] O Livro de Mórmon e a Bíblia são dois conjuntos de escrituras que testificam de Deus e Jesus Cristo. Alguns povos mencionados no Livro de Mórmon tinha escrituras hebraicas parecidas com as que temos hoje na Bíblia. As Placas de Latão por exemplo eram "registros dos judeus, desde o começo até o ano 600 a.C., os quais continham muitos escritos dos profetas (1 Né. 5:10–16). Esse registro era guardado por Labão, um dos líderes de seu tempo em Jerusalém. Quando estava com sua família no deserto, Leí mandou os filhos voltarem a Jerusalém, a fim de obterem estas placas (1 Né. 3-4)." (GEE "Placas de Latão" - https://www.churchofjesuschrist.org/study/scriptures/gs/brass-plates?lang=por ). Assim, vários escrituras dos Livro de Mórmon citavam escrituras das placas de Latão. Néfi diz "leu para seus irmãos "muitas coisas que estavam escritas nos livros de Moisés; mas, para melhor persuadi-los a acreditar no Senhor, seu Redentor, [leu] o que foi escrito pelo profeta Isaías, pois [aplicou] todas as escrituras (...) para [seu] proveito e instrução." (1 Néfi 19:23). Ele também disse que se deleitava nas palavras de Isaías (2 Néfi 25:5) Essa é uma das razões pelas quais encontramos passagens similares da Bíblia no Livro de Mórmon. Seus escritores amavam e citavam as escrituras.
Outra razão é que os temas teologicos da Bíblia eram os mesmos temas do Livro de Mórmon, pois Deus "se manifesta a todas as nações" (Página-Título do Livro de Mórmon). Com o mesmo Deus revelando a verdade não se admira que diferentes povos recebessem convênios, leis e instruções semelhantes.
Prevendo críticas que surgiriam nos últimos dias sobre o Livro de Mórmon, Deus disse:
"Não sabeis que há mais de uma nação? Não sabeis que eu, o Senhor vosso Deus, criei todos os homens e que me lembro dos que estão nas ilhas do mar? E que governo nas alturas dos céus e embaixo, na Terra; e revelo minha palavra aos filhos dos homens, sim, a todas as nações da Terra?
Por que murmurais por receberdes mais palavras minhas? Não sabeis que o depoimento de duas nações é um testemunho a vós de que eu sou Deus, de que me recordo tanto de uma como de outra nação? Portanto, digo as mesmas palavras, tanto a uma nação como a outra. E quando as duas nações caminharem juntas, os testemunhos das duas nações também caminharão juntos.
E isso eu faço para provar a muitos que sou o mesmo ontem, hoje, e para sempre; e que pronuncio as minhas palavras segundo a minha própria vontade. E porque eu disse uma palavra não deveis supor que não possa dizer outras; pois o meu trabalho ainda não está terminado, nem estará até o fim do homem, nem depois disso para sempre.
Portanto, porque tendes uma Bíblia não deveis supor que ela contenha todas as palavras minhas; nem deveis supor que eu não fiz com que se escrevesse mais." (2 Néfi 29:7-10)
[2] "A tradução do Livro de Mórmon" - https://www.churchofjesuschrist.org/study/manual/gospel-topics-essays/book-of-mormon-translation?lang=por
[3] Acesse aqui: https://www.kingjamesbibleonline.org/ ou aqui: https://www.bibliaonline.com.br/akjv/gn/1
[4] Ver Carta para um Diretor do SEI página 7
[5] Para o texto do Antigo Testamento, há uma quantidade limitada de manuscritos antigos em hebraico. Por isso, estudiosos e tradutores consideram as "versões antigas" como testemunhos importantes, incluindo o Targum aramaico, a tradução grega da Septuaginta e a Vulgata latina. Essas traduções foram feitas a partir de originais hebraicos muito mais antigos que o Códice de Leningrado (1008 d.C.), reproduzido na Bíblia Hebraica Stuttgartensia. Muitas edições da Bíblia em português afirmam que a tradução do texto do Novo Testamento segue os "melhores e mais antigos manuscritos". Isso só foi possível graças à descoberta de muitos manuscritos antigos nos últimos 200 anos, como o Códice Sinaítico, o Códice Vaticano, o Códice Alexandrino, o Códice Ephraemi Rescriptus e vários papiros.
[6] Quadro comparativo em inglês:
Malachi 4 | 3 Nephi 25 | Joseph Smith - History 1:36-39 | D&C 128 |
Aproximadamente 430 a.C. | Aproximadamente 34 d.C. | 1838 | 6 de setembro de 1842 |
Malachi | Jesus Christ | Moroni angel | Joseph Smith |
For, behold, the day comes, that shall burn as an oven; and all the proud, yes, and all that do wickedly, shall be stubble: and the day that comes shall burn them up, said the LORD of hosts, that it shall leave them neither root nor branch. (v. 1) | For behold, the day cometh that shall burn as an oven; and all the proud, yea, and all that do wickedly, shall be stubble; and the day that cometh shall burn them up, saith the Lord of Hosts, that it shall leave them neither root nor branch. (v. 1) | For behold, the day cometh that shall burn as an oven, and all the proud, yea, and all that do wickedly shall burn as stubble; for they that come shall burn them, saith the Lord of Hosts, that it shall leave them neither root nor branch. (v. 37) |
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Behold, I will send you Elijah the prophet before the coming of the great and dreadful day of the LORD; (v. 5) | Behold, I will send you Elijah the prophet before the coming of the great and dreadful day of the Lord; (v. 5) | Behold, I will reveal unto you the Priesthood, by the hand of Elijah the prophet, before the coming of the great and dreadful day of the Lord.. (v. 38) | Behold, I will send you Elijah the prophet before the coming of the great and dreadful day of the Lord: (v. 17) |
And he shall turn the heart of the fathers to the children, and the heart of the children to their fathers, lest I come and smite the earth with a curse. (v. 6) | And he shall turn the heart of the fathers to the children, and the heart of the children to their fathers, lest I come and smite the earth with a curse. (v.6) | And he shall plant in the hearts of the children the promises made to the fathers, and the hearts of the children shall turn to their fathers. If it were not so, the whole earth would be utterly wasted at his coming. (v. 39) | And he shall turn the heart of the fathers to the children, and the heart of the children to their fathers, lest I come and smite the earth with a curse. (v. 17)
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[7] "O Espírito de Revelação" - Élder David A. Bednar, A Liahona Maio de 2011, https://www.churchofjesuschrist.org/study/liahona/2011/05/sunday-morning-session/the-spirit-of-revelation?lang=por
[8] Idem a Nota 7
[9] John W. Welch documentou diferenças importantes entre o Sermão da Montanha registrado no Novo Testamento e o que ele chama de Sermão do Templo em 3 Néfi. Welch demonstra que Joseph Smith não está apenas lidando descuidadamente com o Sermão da Montanha.
[10] https://www.fairlatterdaysaints.org/answers/KJV_translation_errors_in_the_Book_of_Mormon
[11] John W. Welch, "Documents of the Translation of the Book of Mormon," in Opening the Heavens: Accounts of Divine Manifestations, ed. John W. Welch, 2nd ed. (Provo, UT: BYU Press; Salt Lake City: Deseret Book Company, 2017), 126–227.
[12] Stan Spencer, "Missing Words: King James Bible Italics, the Translation of the Book of Mormon, and Joseph Smith as an Unlearned Reader," Interpreter: A Journal of Latter-day Saint Faith and Scholarship 38/5 (10 July 2020). [45–106]
[13] Joseph Smith III, "Last Testimony of Sister Emma;' Saints' Herald 26 (October 1, 1879): 289-90; and Joseph Smith III, "Last Testimony of Sister Emma;' Saints' Advocate 2 (October 1879): 50-52
[14] "The History of the Text of the Book of Mormon," Interpreter Foundation
[15] https://evidencecentral.org/recency/evidence/archaic-vocabulary
[16] Skousen, The Nature of the Original Language, 11. For studies comparing the archaic language in the Book of Mormon to that used in Joseph Smith’s other writings, as well as a variety of pseudo-biblical texts, see Carmack, “A Comparison of the Book of Mormon’s Subordinate That Usage,” 1–32; Carmack, “Personal Relative Pronoun Usage in the Book of Mormon,” 5–36; Carmack,
[17] Para obter evidências linguísticas adicionais que apoiam esta posição, consulte Evidence Central, “Book of Mormon Evidence: Stylometry”, Evidence# 0272, 22 de novembro de 2021; Central de Evidências, “Evidências do Livro de Mórmon: Diversidade de Vozes”, Evidência#0273, 22 de novembro de 2021.
[18] John A. Tvedtnes and Matthew Roper, "Joseph Smith's Use of the Apocrypha: Shadow or Reality? (Review of Joseph Smith's Use of the Apocrypha by Jerald and Sandra Tanner)," FARMS Review 8/2 (1996). [326–372]
[19] Richard L. Bushman, Joseph Smith and the Beginnings of Mormonism (Urbana and Chicago, Illinois: University of Illinois Press; Reprint edition, 1987), 95–100. ISBN 0252060121
[20] Robert J. Matthews, A Plainer Translation": Joseph Smith's Translation of the Bible: A History and Commentary (Provo, Utah: Brigham Young University Press, 1985), 26; cited in footnote 165 of John Gee, "La Trahison des Clercs: On the Language and Translation of the Book of Mormon (Review of New Approaches to the Book of Mormon: Explorations in Critical Methodology by Brent Lee Metcalfe)," FARMS Review of Books 6/1 (1994): 51–120
[21] Royal Skousen, The History of the Text of the Book of Mormon, Part Five: King James Quotations in the Book of Mormon (Provo, UT: FARMS, 2019).
[22] Ver https://kjbrc.org/the-use-of-italics-in-the-king-james-bible/
[23] "P: O que significam as palavras em itálico? R: Estas são palavras que os tradutores acrescentaram do hebraico e do grego para tornar a tradução completa, e essas palavras não se encontram nos manuscritos bíblicos. Também é visto em itálico em algumas Bíblias.
Exemplo:
Gênesis 1:10 - E chamou Deus ao solo seco de Terra; e ao ajuntamento das águas ele chamou Mares. E Deus viu que isto era bom." - https://bkjfiel.com.br/faq-perguntas-frequentes/#:~:text=P%3A%20O%20que%20significam%20as,em%20it%C3%A1lico%20em%20algumas%20B%C3%ADblias.
"Itálicos no texto bíblico. De acordo com o formato tradicional, os itálicos nos versículos da Bíblia indicam palavras que não são encontradas no texto original (hebraico, aramaico ou grego), mas que foram acrescentadas para esclarecimento na tradução."
https://www.churchofjesuschrist.org/study/scriptures/quad/quad/abbreviations?lang=por
[24] A palavra SENHOR em letras maiúsculas é usada em algumas traduções da Bíblia em substituição do Nome do Verdadeiro Deus "Javé [Jeová]" - Gênesis 2 : 4 - Tradução SBB.
Nao ha duvidas que o profeta Joseph Smith foi chamado por Deus, que ele preside essa dispensacao, que ele traduziu o Livro de Mormon pelo dom e porder de Deus. A carta menciona diversos erros especificos que o Livro de Mormon reproduz, entre eles o autor destaca 14 no link: https://cesletter.org/1769-kjv-errors/
ResponderExcluirLucas Guerreiro, eu gosto muito de seu trabalho e admiro a clareza com a qual voce trata temas sagrados. Acredito que valeria a pena ir com mais profundidade em cada um dos 14 exemplos onde o Livro de Mormon duplica erros de traducao na Biblia americana (KJV) daquela epoca.
ps. Gostei da camisa que voce veste durante esse video!
Oi Ricardo, obrigado!
ExcluirPubliquei vários desses "erros" e a resposta a eles pela FAIR aqui: https://cesletterresposta.blogspot.com/2024/06/supostos-erros-de-traducao-da-do-rei.html